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Archive for julho \30\UTC 2010

18.

Eles cantam, cantam, cantam incessantemente. Suaves, como se estivessem permanentemente alegres, inexoravelmente alegres. Estava quente, apesar da brisa constante que agitava os galhos das árvores. Não havia uma só nuvem no céu, era de azul profundo e imutável. Assim era aquela tarde com o canto, o calor e a brisa e o azul embriagante.

Estava quente sim, mas mesmo assim ela vestia uma calça moletom, costume… Mas o que ela pensava era que aquilo a havia tocado de alguma forma… “Sem medo de morrer”. Algo inspirador flutuava entre o que poderia ser algo novo, como uma luz, ou algo nostálgico. Engraçada era forma como ela se via em tudo aquilo, era algo comum, como um velho conhecido, mas ao mesmo tempo a fazia olhar para além, para longe, para algo que ainda não chegou. Tinha como um poder, momentos como aquele, fazia com que algo se agitasse dentro dela. Velho conhecido esse sentimento, vez ou outra a assoma de uma forma estranha.

Ela levantou-se, pensou em calçar os chinelos, mas algo lhe disse que deveria sentir seus pés no chão e assim ela o fez. Caminhou pela sala, como se algo estivesse a sua espera… Vai saber, talvez a brisa lá fora ou qualquer outra coisa inspiradora poderia estar a sua procura. Ela abre a janela e senti em sua própria pele o dia que está lá fora. É tudo… Os pássaros que a hipnotizam, o calor, a brisa, o céu, o sabor de tudo aquilo. Apóia-se no peitoril e fica a observar quanta vida, quanta vida há em cada momento, em cada centímetro vivo. Em tudo, em tudo havia algo banal, mas que remetia a uma grande importância, a uma grande vontade, não sei… Com certeza remetia a algo, momentos como aqueles simplesmente existem e não precisam, necessariamente, serem  explicados, existem porque nós precisamos deles.

Ela queria chegar a uma conclusão.

Aquele perfume de erva que seu gato trouxe lá de fora, ao pular a janela da sala, era tão bom e parecia com algo como Erva-Doce e Alecrim, e  logo a própria brisa fez o favor de trazer para dentro mais daquele perfume de vida. Era gratificante poder saborear aquele cheiro, aquela brisa, aquela tarde.

“Sem medo de morrer” trazia algo consigo… Lembrava-a de algo, lembrava-a que a vida existe e que é preciso simplesmente existir, simplesmente sentir a brisa fresca da tarde, sentir a vida em seu modo mais elevado ou simples, mas senti-la. Assim era.

Era algo mágico, estar vivo era algo mágico e memorável. Esta era a conclusão. É incrível estar vivo, ter uma história, ter momentos, ter ar em seus pulmões e um coração que pulsa. Era isso e pronto, não havia como aprofundar essa explicação porque cada momento de vida é único, singular.

Simplesmente era isso, estava feliz por estar vivar e ter a certeza disso. Estava feliz por ter algo a viver, algo a recordar, a contar, a escrever e não importa qual seja a imensidão de cada momento. Era ótimo sentir novamente aquela brisa de ervas e qualquer coisa viva, era ótimo estar viva e escrever, ouvir e escrever, observar e escrever… E assim seria. Na verdade, é bem simples.

“’O coração é o músculo mais forte do corpo.’ Não o dela, ela dizia.”

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Ainda há luz.

Ela está sentada em um banco, um solitário banco de uma praça ou rua qualquer. A brisa morna carrega seus cabelos. O céu está repleto de estrelas, mas poderia estar repleto de nuvens, que escureceriam aquela noite clara e quente. Está sozinha. Sim, está profundamente sozinha, mas sem dúvida acompanhada de si mesma e envolta em seus pensamentos. Parece comum, mas isso é relativo. Ela ou a cena é comum… Na realidade, acho que nem ela, nem a cena são banais; há algo de profundo, forte e sentimental nisso tudo. Posso sentir um ambiente pesado de expectativas. Estaria esperando o que, ali, àquela hora?

Passam-se mais alguns minutos, eles quase se arrastam… O que haveria de tão profundo em seus pensamentos, em seu ser? Acho engraçado o fato de que pessoas totalmente desconhecidas serem absolutamente interessantes. O fator desconhecido quase encanta… Já pessoas conhecidas são pessoas conhecidas, afinal não há nada de novo, nada que aguce curiosidade; normalmente.

A cena me comove de alguma forma, posso sentir o fardo desse desespero contido, que ela sente, em minhas próprias costas. Maçante. E então, ela o vê… Fez-se desnecessário qualquer aceno ou palavra, simplesmente se olharam e se olharam mais ainda, tempo esse que a eles pareceu ser uma eternidade, mas a mim não foi mais que um minuto. Observaram-se atentamente como tentando absorver cada instante, cada respiração, cada batimento cardíaco que se acelerava, cada olhar, cada palavra não dita. Enfim, ela corre e o abraça… Ele retribui intensamente esse gesto, como se fosse o último de sua existência. Sinto em mim o calor de seus corpos, seus corações batendo quase que junto ao meu.

Finalmente me afasto. Levando um pouco daquele calor comigo, sinto-me de certa forma mais viva, simplesmente por ter presenciado um momento tão intenso, mesmo que não pertencesse diretamente a mim eu estava ali, portanto absorvi aquela intensidade, levei um pouco de paixão comigo.

Sinto-me inspirada com aquela espontaneidade de emoções, aquele querer inexorável… Não sei, de fato, o que aquele encontro significava a eles, mas a mim aquilo foi um lembrete, dizendo que eu posso acreditar em momentos como aquele, que eu posso ser a protagonista dessa cena, apesar de eu crer ser impossível. Compartilhar me parece tão inalcançável e chega a ser improvável que eu consiga sentir, e partilhar, esses momentos de puro afeto, torpor e alegria… A verdade é que eu preciso acreditar, tenho que conseguir acreditar. Crer no incrível.

Sim, à partir de agora alguns textos terão título.

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16.

Olhando em volta, noto a ausência de mel, a ausência da inspiração, a ausência da inspiração com mel. Essa ausência não seria nada além do que a falta doçura. Sim, simples assim.

Há a vida amarga, a azeda, a salgada, a “sem sal e sem açúcar” e a doce. Ah… A vida doce. Aquela em que tudo fica encantadoramente simples e, simultaneamente, cravejada de pedras preciosamente doces, assim como balas… Cereja, morango, menta… E tudo se transforma em deleite.

Dias e noites, amanheceres e entardeceres, acordar e adormecer… Dia após dia sempre mais doce. Não sei se é feliz, isso pouco me importa porque ser feliz é um conceito relativo, mas com certeza é com mel, açúcar e chocolate.

O céu é azul e profundo e está tão excessivamente próximo a mim que posso tocá-lo, senti-lo em minha língua. Qual gosto teria o céu? Bala, sorvete, pudim ou talvez amora. Uma deliciosa geléia de amora. Geléia de amor, saboroso só de se ver.

Nada, no entanto, apenas aos olhos, parece tão doce como mel, chega a ser prazeroso assistir àqueles fios de doçura. Hipnotizante… Como descrevê-los? Tão sereno, não há pressa em seu escorrer. Já as abelhas, que o produzem, não param nunca, tão agressivas, tão desgastadas… Mas é de seu suor que vem o mel, o amor. Duas palavras que deveria ser sinônimas, o mel e o amor. São igualmente inspiradores.

Olho então para uma de minhas paixões: escrever. Andei tanto tempo travada, impossível era conseguir enxergar ou provar algo que me pusesse a escrever. Frustrante. Há uns dias atrás, destravei. Aleluia, eu diria. Estava entrando em catarse… Meu maior bem, minha melhor terapia havia me deixado, mas finalmente voltou para mim, para meus dedos. O que concluo diante disso é que faltavam-me as palavras, as inspirações, porque faltavam-me as doçuras, e ainda faltam, as doçuras pela vida, o amor pela vida, e não por algo ou alguém, mas simplesmente pela vida. Só agora dei-me conta disso.

O “viver” precisa deixar de ser um filme Preto & Branco para tornar-se colorido; precisa deixar de ser salgado/amargo/azedo para permitir-se ser doce; precisa deixar de ser escuro para dar à luz à própria luz.  E assim a vida segue.

Existirão dias terrivelmente amargos, mas sempre haverá os dias de visita à sorveteria de nossas vidas.

Doce que te quero doce.

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15.

15:46h – estamos no meio da tarde, ainda. O galo está cantando – sim, o galo está cantando-,  os carros passam, os aviões passam, ambos trazendo seu sonido, quebrando para sempre o silêncio engolidor desta tarde. Motores, motores, cordas vocais, cordas de um violão, a sanfona do Beirut.

Mais um dia, mais uma tarde, em breve mais um a noite e uma madrugada, enfim 24 horas. Sim, um dia. O que fazer com um dia, com vinte quatro horas? O que fazer todos os dias da sua vida até o infinito? A cada dia um novo céu, um novo sol, um novo “eu”, porque o céu, o sol, o “eu” são novos a cada dia, passam por transformações visíveis ou no mais profundo âmago. Hoje, amanhã e sempre. Isso te faz algum sentido?

Mais um momento se passou, mais um minuto… O que você está fazendo? Eu estou escrevendo. Escrevendo para salvar minha tarde, salvar meu sonho, salvar algo único e rico dentro de mim. E eu escrevo… Escrevo porque preciso, porque minhas vísceras urram de dor por clamar sem serem atendidas, e tanto que clamaram, por isso estou aqui a digitar palavras, enquanto escuto Beirut, banda muito boa por sinal. E isso, por acaso, faz algum sentindo, faz algum sentido escrever? Essas palavras fazem algum sentido? Se fazem, eu não sei. Só sei que preciso delas e imagino que elas precisem de mim.

Bom trazer um pouco de mim para fora de mim, expulsar algo bom ou ruim, compartilhar enfim. Eu ofereço algo de mim, tu ofereces algo de ti, as palavras oferecem algo para nós, nós oferecemos algo para as palavras e assim será sem fim.

O que deveria ser entendido? Entendido sobre o quê? Não sei. Há algo para entender? Espero que não. A todo o tempo queremos entender ou explicar algo, mas saiba que tantas vezes as palavras são apenas palavras, o que entender, então? O que explicar, então? Nada, apenas leia, apenas fale. Ou não. Vontades, que sejam realmente vontades, realmente espontâneas, que sejam realmente o chamado das vísceras.

Algo a acrescentar? Tão já? Acredito não saber. O que eu sei? Na verdade, não sei nada e nem quero saber. Ou quero.

Palavras

Palavra

Palavr

Palav

Pala

Pal

Pa

P

Palavras… A elas agradecer-lhes-ei.

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14.

Não há dúvidas quanto ao fato de que a mente e o corpo andam em ritmos e lugares diferentes.  Às vezes minha mente dá uma volta ao mundo, vai até a Rússia de Dotoiévski, enquanto meu corpo está quase paralisado. O mesmo pode se dizer sobre meu corpo, tantas vezes eu ando por ruas e estradas, tantos lugares, mas minha mente e pensamentos permanecem quase imóveis e, até mesmo, saturados de permanente nada. Ultimamente, no entanto, posso dizer que ambos estão parados, permanentemente imutáveis, na verdade é uma fusão entre semi-vivos ou semi-mortos. O ápice desses momentos de semi-vida são as tardes. Ah, as tardes…

O pôr-do-sol é o momento mais incrível do dia, enquanto as seis horas que constituem uma tarde são momentos terríveis e maçantes. O pôr-do-sol é quase um milagre, uma epifania, já que depois de tanta espera o sol finalmente se esconde. Aliás, o problema não é o sol não, tenho adorado esses últimos dias quentes. Sem dúvida, os problemas são as horas inúteis que parecem me engolir, me consumir sem que eu as consuma. Quase desesperador.

12h… 15h40min… 17h00min… Liga a televisão, desliga a televisão, liga o computador, desliga o computador, liga a câmera, desliga a câmera. Deita, levanta. Tenta dormir, tenta fazer algo. Lê a Folha Ilustrada. E finalmente, desiste. Agora o que resta é espera o sol ir embora… E finalmente, 18h00min. Lindas cores de amarelo, laranja, vermelho, rosa, roxo e azul invadem o céu. Nada poderia ser mais consolador do que isso, após seis horas de desespero contido.

Faz quase três meses que eu não escrevo. Realmente há momentos que toda e qualquer inspiração vira poeira, ou nem isso. Conseguir escrever essas linhas ínfimas é quase como um alívio, talvez.

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