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Archive for setembro \10\UTC 2010

Já cheguei a dizer que as tardes são momentos imprestáveis e maçantes do dia, mas por incrível que pareça são nesses momentos em que eu me sinto mais à vontade e mais inspirada para escrever. Vai entender… Talvez seja pela luz dourada que entra pelas janelas e invadem a sala, ou pelo calor preguiçoso que faz com que meus gatos e eu fiquemos largados no sofá à espera da noite. E justamente nesta espera, entre estar dormindo e esperando pela noite, que começo a pensar sobre o cotidiano e também sobre coisas não tão cotidianas assim.

Me pego negando e fugindo, mas durante essas tardes preguiçosas chego a criar uma prece para que eu aceite, para que eu não fuja mais do meu coração, da minha alma. E que, mais ou mais tarde, o sentimento se torne inevitável em mim. Talvez eu evite as tardes porque elas me trazem verdade, me fazem pensar e olhar para dentro de mim mesma. Fuga.

Haveria uma chave, uma senha ou algo mais poético para então eu conseguir me abrir? Quem sabe uma palavra, um gesto… Não tenho certeza. Mas a verdade é que nessas horas de que serve uma certeza? De que serve? E uma mala cheia de mágoas e pesos inúteis, para que haveria de servir? Na verdade eu sei a resposta, ela é um peso, é o verdadeiro cadeado do medo, o medo que me prende e paralisa. Sim, este é um bom momento para jogar essa mala no lixo comum, nada de reciclável aqui, afinal isso nunca mais deve voltar e o que poderia ter serventia dessa mala já foi utilizado. Sem dúvidas.

O mais difícil é dar o primeiro passo, colocar essa grande mala na rua para que o lixeiro leve embora para nunca mais voltar. Que leve embora para o “grande lixão dos sentimentos inúteis”. O mais engraçado de tudo isso é que essa mala é algo comum na vida de todos os seres humanos, uns se livram rápido dela e já outros a carregam por uma existência inteira; pobres infelizes.

Talvez hoje seja dia de lixeiro e caso não for, amanhã ou depois com certeza será. Afinal, o lugar de coisas que não nos servem mais é no lixo.

Melhor mesmo é a aproveitar essa tarde dourada e quente e aguardar pelo inevitável.

Às vezes me torno incoerente. Melhor assim.

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Apenas eu.

  É domingo, amanhã é meu aniversário. É quase meio-dia, o cheiro do molho de tomate está invadindo a casa toda. O tempo está quente e seco, parece que estou em pleno verão do Mediterrâneo. Logo de manhã fui colher amoras, isso é o que eu chamo de “pequenos prazeres”. Esse é lado bom desse calor todo, as amoras anteciparam sua chegada. Acalentador, eu diria. Mas enfim, isso tudo não vem ao caso agora.

  O fato é que eu quero chuva, já faz dois meses que não chove aqui, já faz dois meses que as nuvens não me trazem um pouco de emoção nesse deserto todo. Preciso sentir algo aqui, preciso colocar meus pés em uma poça d’água, preciso sentir aquele cheiro de terra molhada e principalmente, pensar com nostalgia e esperança sobre a vida. Parece-me que não é apenas Rio Claro que está seca.

  Estou em algum lugar alto, algum lugar acima das coisas mundanas, acima dos sentimentos humanos, me sinto alheia. Vejo tudo de cima, como um narrador observador, onisciente. Sei dizer um pouco de cada um que vejo, interpreto um pouco de cada um através do que eu vejo… Às vezes é bom sentir algo, mesmo que não seja algo verdadeiramente meu, que seja algo que eu compartilho e sinto à distância. Mas na verdade, nada me toca de verdade ou tudo me tocando que já nem sei mais. Devo estar poupando alma, como já ouvi dizer. Pensando bem, não estou poupando alma nenhuma, estou evitando.

  Começo a pensar que aqui falta chuva, em mim falta sentimento, mas qual é o problema disso? Não quero sentir, não faz mais sentindo algum pra mim, não me toca mais. É simples. Não entendo por que o mundo fica a gritar: “Vamos amar, vamos nos apaixonar porque tudo que existe de lindo do mundo só existe porque nós amamos alguém.” Ou melhor, não agüento mais ouvir o mundo gritando isso. Eu não entendo, não agüento e não quero ouvir que a maneira que eu levo as coisas está errada, pois não está, não está e apenas eu posso dizer o que é certo, o que é melhor, o que me toca mais. Apenas eu.

  E não, eu não quero saber o que você acha dos meus paradigmas, das minhas “travas” e bloqueios, porque isso só diz respeito a mim. Quem pode dizer o que é bonito ou não? E sim, eu vejo coisas lindas, sinto meu coração leve quando vejo, ouço e digo certas coisas e para isso eu não preciso estar apaixonada, amando e fazendo papel de ridículo por aí.

  Enfim, que me chamem de fria, racional, indiferente e mais qualquer adjetivo que desejar, pois o que eu sei é que eu sinto um calor muito grande quando eu faço o que gosto, quando escrevo, quando fotografo, quando meu gato deita no meu colo. Sinto-me imensamente incontrolável e emocional quando ouço algumas músicas, vejo alguns filmes, dou um ábaco verdadeiro e quando meu gato dorme de língua pra fora. Sinto-me extremamente envolvida, tocada e dedicada quando olho para algo que me importo, quando vejo uma injustiça. No entanto, me chamam de fria. Que seja.

  “Que fique muito mal explicado, não faço força para ser entendida. Quem faz sentido é soldado.”

  P.S.: Eu amo minha individualidade. Me dividir é o caralho.

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19.

É roxo. Há uma luz, uma energia roxa pelo quarto todo.  Ela olha para um dos cantos do quarto, encontro de paredes roxas. Começa a escrever e pensar sobre certas coisas que não deveriam ser racionalizadas.

Fraqueza. Frustração. Sim, ela sente um misto desses dois sentimentos. Como um bolo Formigueiro, mas a sensação aqui, ao contrário do bolo, não é nada doce… É bem amargo, na verdade. É difícil até de sentir, imagine para explicar em palavras!

Qual o motivo? Qual a explicação? Há um por quê? Poderíamos falar que não é o momento certo, a pessoa certa, o sentimento certo. Mas não há uma resposta exata para perguntas subjetivas.

Coloca-se como vítima, como agressora, com raiva, inundada de tristeza. O fato é que ela não acha uma explicação, é difícil de entender. Mas é isso então, ela simplesmente não sente. – Um ponto final cairia bem aqui?

Olha para um lado, para outro, procura entender. Há dias em que tudo parece conspirar tudo parece apontar um “dedo divino” na cara dela e dizer: “Quem está errada é você. Não há o que explicar. Você simplesmente deixou de acreditar e por isso deixou de existir, de poder existir.” Mas seria mesmo algo tão divino e elevado assim ou apenas um “porque” racionalizado?

– Não consigo, não consigo entender. Não consigo, não consigo enxergar. Só posso dizer que dói, que dói porque não se sente, porque se enxerga… Sim, porque sou cega.

É sempre estranho olhar para o lado e ver acontecer, acontecendo, ver alguém que é capaz disso. Ela sente como se o vazio dentro dela começasse a apertar-se e retorcer-se, como um trapo velho e sujo, como paredes que se fecham e esmagam alguém lá no meio… Quase surreal, mas é real. É real porque você passa por isso, tenta fechar os olhos, a mente e o coração… Mas é inevitável, minha querida, está acontecendo. Ou melhor, não acontece, não está acontecendo.

Há sempre algo lá fora, há sempre muita coisa lá fora… Idas e vindas, começos e finais, recomeço. É fato, não há como lutar contra isso, pois por onde você passa há vida, está tudo vivo, estão todos vivendo. Respiração, pulsação, abrir e fechar dos olhos, o mover dos músculos, está tudo vivo o tempo todo, está tudo em eterno movimento. Menos você, ela.

É como uma carcaça, um zumbi… Um corpo que se move, respira, mas não pulsa, não está realmente e verdadeiramente vivo. Não é nada além do que uma aspiração de ser humano. E dói, e dói, e dói, e dói, e dói, e dói, mas ao mesmo tempo é impossível sentir, é impossível reagir, impossível mover-se… Ela não passa de um zumbi.

Casca fria, sem vida e emoções. E dói, e dói, e dói e esquece-se, deixa de saber que dói.

Racional, racional, racional, racional, não dói, não sente, não vive, não lembra. Já se esqueceu. Agora respira e vai-se embora. Até outro dia, porque sempre há algo dentro de ti, casca fria, que teima em gritar por vida, por sangue. Até outro dia, enfim.

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